Persépolis, de Marjane Satrapi


  Resolvi escrever sobre Persépolis porque, dado o momento atual lá nos EUA, com repercussão no mundo todo e toda a islamofobia gritando cada vez mais alto, me pareceu muito interessante enaltecer um trabalho que abordasse essas questões. Sinto que elas são, na verdade, desconhecidas em sua essência por nós ocidentais, que torcemos o nariz muito facilmente para os costumes, tradições e religião de países do Oriente Médio, muitas vezes sem ao menos compreender o que realmente se passa (ou se passou) ali – e ironicamente, isso é retratado nos quadrinhos o tempo todo.

 

Persépolis é uma história em quadrinhos autobiográfica de Marjane Satrapi, uma quadrinista iraniana. A obra é autobiográfica, então o que tem a ver com tudo o que eu disse ali em cima? Você deve estar pensando, se não for familiarizado com a obra. Acontece que não só um retrato de vida, Persépolis é uma bela aula de história. Marjane cresceu no Teerã, no Irã, no final da década de 1970. Isso significa que a autora passou por diversos momentos políticos de seu país, e acompanhou de perto os conflitos do Oriente Médio, como a Revolução Iraniana que aconteceu em 1979, que é justamente a que abre a narrativa. Entendemos os conflitos que ocorrem ali na região do Irã desde 642 , quando os árabes invadiram a Pérsia pela primeira vez, e seus desdobramentos na sociedade moderna. Porém, isso tudo nos é apresentado de uma forma mais profunda e do ponto de vista de alguém que realmente teve essa vivência, e  não com a impessoalidade e o tom distante a qual somos acostumados quando passamos por essas questões na escola ou nos jornais. Marjane – ou Marji como a chamam seus familiares nos quadrinhos – vai nos explicando essas invasões e conflitos, que foram mudando e envolvendo outras nações até meados dos anos 90, enquanto os mistura com sua vida, nos mostrando como sua infância foi entremeada entre brincadeiras e valores comunistas, de revolução e manifestações; como foi sua adaptação enquanto pré adolescente adoradora da cultura ocidental num país repressor (onde uma fita do Iron Maiden só conseguia ser obtida através do mercado negro), e finalmente adolescente morando sozinha na Áustria para fugir da guerra, longe da família e sofrendo um choque cultural absurdo e onde ninguém sabia absolutamente nada sobre seu país e cultura.

 

Sua narrativa é muito bem humorada e leve (assim como são seus traços, construídos com nanquim e pincel), apesar de tratar de assuntos tão densos: a história é recheada de trechos que terminam em desaparecimentos, fugas, prisões, torturas, morte. Já desde menininha, Marjane é muito questionadora. Por ter crescido numa família com valores comunistas, e que conheceu a “ocidentalização” – hoje vista como algo liberal e distante da realidade de países como o Irã, a menina-Marji está sempre questionando o que vem acontecendo no seu dia à dia: a imposição da obrigatoriedade do véu, as opiniões políticas divergentes das atitudes de seus pais, a separação de meninos das meninas nas escolas, os limites das religiões, das classes sociais. Gosto que no início da narrativa, ela dá bem esse tom de criança que tenta compreender a realidade, baseada nas pequenas certezas que constrói através dos adultos – e que parecem nunca se sustentar e ser tão mutáveis e inconstantes quanto os conflitos em seu país. A personagem de Marjane criança é extremamente forte e desafiadora.

 

O quadrinho também traz muitos questionamentos sobre o papel da mulher nessa sociedade então em transição. Como os valores se alteram, como passam a ser percebidas tanto dentro de seu país quanto pelas sociedades ocidentais. Quando adolescente, morando na Áustria, Marji tenta compreender, aceitar e se inserir na cultura européia (sendo uma das grandes questões pra ela a da liberdade sexual da mulher, que ela acompanha de perto com suas amigas) sabendo que sua visão de mundo foi moldada pelo tradicionalismo de seu país.

 

É uma leitura muito divertida e que ainda assim consegue trazer muitos questionamentos sobre todos os assuntos que pensar na cultura islâmica desperta.

 

Persépolis também tem um longa metragem animado (muito lindo por sinal), cuja história se estende um pouco além do final dos quadrinhos.

 

https://www.youtube.com/watch?v=1yXyXvHbREk
Concluo a resenha aqui deixando umas indicações de leituras pra pensar a religião e libertação feminina. É muito comum enxergamos apenas o lado da repressão, e não o lado das próprias mulheres que vivenciam essa realidade, isso quando não escolhem se converter ao islamismo por contra própria. Marjane Satrapi cresceu num Irã em mudança e adaptação. Mas e aquelas que nunca conheceram o outro lado, e ainda assim defendem seu ideal de liberdade?

Aqui deixo um disponível um artigo muito legal sobre a visão política em Persépolis: https://drive.google.com/file/d/0B9l10gixfynLdmNPZ0JPb055eGM/view?usp=sharing
E aqui esse texto do Medium, de Gabriela Moura, sobre o feminismo islâmico:
https://medium.com/@metaforica_gabi/feminismo-isl%C3%A2mico-rompendo-debates-universalistas-a12c3180a90f#.iab08ayzp