Literatura: A Guerra que Salvou a Minha Vida, de Kimberly B. Bradley


A Guerra que Salvou a Minha Vida não foi a primeira obra sobre a II Guerra Mundial que li. Confesso que ainda não conheço Anne Frank, mas tive a oportunidade de ler É Isto Um Homem?, do judeu Primo Levi, um sobrevivente de um campo de concentração nazista. Ter lido essas duas obras, sendo a primeira destinada a um público jovem e a segunda, uma narrativa real de sobrevivência, me trouxe duas experiências muito diferentes sobre esse período histórico. Enquanto É Isto Um Homem? é um livro triste e cheio de desesperança, A Guerra Que Salvou a Minha Vida traz um tipo diferente de tristeza com uma promessa de futuro melhor.

Ada é uma menina que não sabe sua idade e vive presa em casa sofrendo abusos da mãe por ter nascido com o pé torto. Ela cuida de seu irmão pequeno Jamie, limpa a casa e cozinha para a mãe sob gritos, ameaças e castigos, até que Londres se torna alvo das bombas alemãs. As crianças são evacuadas para longe e Ada abraça a oportunidade de finalmente se ver livre não só do sufocante apartamento, mas também das humilhações que sofre da mãe todos dias.

A “Mãe”, como é chamada no livro, trabalha em um bar e não demonstra nenhum carinho pelos dois filhos, considerando o “pé ruim” de Ada uma vergonha. Como a menina vive trancada e só cumprimenta os vizinhos da janela, todos acreditavam que ela tinha algum tipo de deficiência mental ou que fosse agressiva, e Ada passa a também acreditar que não tem nenhum valor por ter um problema no pé.

As crianças evacuadas são levadas para famílias no campo. Ada e seu irmão Jamie são os últimos a ser escolhidos por estarem muito sujos e pelo pé da garota. A responsável pela evacuação os leva para a casa de Susan, uma mulher que vive sozinha e com depressão depois da morte de sua melhor amiga, Becky. Ada tem muita dificuldade em aceitar ser cuidada, amada, vestida e alimentada, além de não acreditar ser capaz de aprender a fazer qualquer coisa além de montar Manteiga, um dos pôneis de Becky.

Minha única crítica à obra parte do fato de que acredito que Susan seja lésbica e que Becky não era apenas sua melhor amiga, mas também sua companheira. No livro, ela fala que não se casou, o que era uma frustração para sua família, além de as duas morarem juntas e Susan ter herdado a casa, o dinheiro e os cavalos de Becky. O impacto da morte dela sobre Susan também é descrito com muita força no livro e acredito que, se fosse uma dupla de uma mulher e um homem, ninguém aceitaria que esse luto era por uma amizade.

A II Guerra Mundial salva Ada duas vezes: quando a evacuação a permite escapar não só das bombas, mas dos abusos da mãe, e quando ela reencontra seu valor ajudando as pessoas feridas pela guerra. Ajudando o outro, Ada torna-se capaz de receber ajuda e amor e, por isso, A Guerra Que Salvou a Minha Vida é um livro para todas as idades: trata de abuso, infância, trauma e família de um jeito sutil e sensível, com a perspectiva da cura e, finalmente, da paz.

 

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Você também pode ler o primeiro capítulo aqui.

A obra foi recebida numa parceria com a Darkside Books, pelo selo DarkLove, dedicado apenas a autoras mulheres. 


Carol Marques

Sobre Carol Marques

Carol estuda jornalismo e sonha em mudar o mundo com escrita, desenhos e comida gostosa. Passa tempo demais no Tumblr e Youtube, além de estar em um relacionamento sério com seu e-reader.