Entrevista: Jarid Arraes


jaridarraesJarid Arraes nasceu e cresceu em Juazeiro do Norte, no Ceará. Filha e neta de cordelistas, desde muito jovem teve contato com essa manifestação da arte popular nordestina e hoje explora as possibilidades desse formato dando visibilidade às histórias de mulheres negras e a temas relacionados ao feminismo. Seu estilo de escrita, contudo, não se limita ao cordel: ela publicou As Lendas de Dandara, criou o projeto Terapia Escrita e escreve textos militantes sobre feminismo e luta contra racismo.

Conversei com ela sobre escrita, influências, cordéis, a experiência de publicar um livro de forma independente, criação de personagens e seus projetos futuros. Vale a pena ler e conhecer um pouco dessa escritora, que admiro muito.

Você explora muitas possibilidades da escrita: tem 60 títulos de cordéis, escreveu colunas e matérias com viés de gênero e feminismo e lançou As Lendas de Dandara. Além disso, você tem o projeto Terapia Escrita que trabalha a criação literária de forma terapêutica. Essa diversidade me faz querer saber sobre como você vê a escrita e como funciona o seu processo criativo.

Jarid: Eu vejo a escrita como algo que está acessível para qualquer pessoa. Não vejo como um dom, uma espécie de talento que nasce com você, como se fosse um tipo de privilégio ou magia. Acho que é prática, leitura, interesse, muitas vezes é disciplina e também muita frustração. Então eu me sinto muito livre para experimentar diferentes formas de escrever. Embora minhas obras sejam geralmente utilizadas em escolas, tenham uma pegada transformada em didática, eu tenho experimentado muito com outros estilos. Eu gosto de ler bastante daquilo que quero escrever, pegar algumas semanas pra me dedicar a um estilo ou tema, eu pesquiso referências em outros formatos, tipo filmes, séries e até novelas. Tudo isso faz parte do processo criativo. Até ficar no whatsapp faz, porque nas conversas surgem sacadas ótimas. E eu não acredito na ideia de inspiração como algo mágico que vem, como um presente. Inspiração pra mim é tipo o conceito de insight da Gestalt Terapia: você vai juntando as peças desse quebra-cabeças e uma hora parece que tudo se resolveu do nada, mas você já está montando faz tempo, às vezes sem nem perceber. E acima de tudo eu me permito não escrever, acho que tudo tem seus ciclos, então tudo bem também não criar.

Quais são as suas principais influências na escrita?

Jarid: Acho que minha principal influência é a literatura de cordel, até porque a linguagem do cordel está muito na minha fala e os cordéis foram as primeiras coisas que li na vida. E eu consegui desenvolver uma linguagem de cordel muito minha, que junta outras referências que tenho, como a coisa mais urbana, meus gostos musicais, as palavras que eu uso, gírias. Meu pai é muito presente nisso, porque ele escreve cordel, mas também escreve poesias concretas, cheias de palavrões, escatologias até hahaha. Acho massa essa misturada, se dar permissão de não ser só uma coisa, mas várias, até mesmo coisas que geralmente não imaginamos juntas. É engraçado então que minha única influência realmente literária seja o cordel e o restante seja um balaio dos tipos de músicas que gosto, séries, moda e discussões sociais, claro. Não dá pra deixar o feminismo negro fora disso.

O mundo dos cordéis é ainda dominado por estereótipos de gênero e escritores homens. Como se deu a sua decisão de abordar temas como feminismo e mulheres negras notáveis através dessa forma de escrita? Você foi bem recebida no meio?

Jarid: Eu decidi isso porque queria fazer essa junção dos dois mundos: o da tradição e o da mudança de paradigmas. Não vejo também como poderia ser diferente. Eu vivo feminismo negro, eu vivo LGBT, vivo preta, vivo mulher, vivo Cariri. Sou isso o tempo inteiro, então como eu poderia fazer algo diferente? Mesmo os cordéis que não são abertamente panfletários, mesmo o que são de ficção, sempre tem uma protagonista negra, bissexual, tem o resgate da ancestralidade negra… e eu fico muito feliz porque isso foi muito bem recebido, sobretudo por quem não está bitolado nos moldes que o cordel é tratado no Brasil. Nas bienais e feiras eu tenho a sensação de que são sempre os mesmos cordelistas, sobretudo homens, e grande parte nem publica mais em folheto, apenas em livros. Isso me incomoda. Tem que ter de tudo, tem que ter cordel em folheto, tem que ter gente que foge dos estereótipos (e as que estão dentro também, por que não?). Mas recentemente respondi uma entrevista e a jornalista me perguntou como as pessoas me tratavam já que eu não “pareço” escrever cordel. Pensei nisso por alguns segundos e entendi o que ela quis dizer: eu tenho um monte de tatuagens, eu não vou apresentar meus cordéis com um chapéu de couro, eu tenho 25 anos. Sou muito diferente do que as pessoas esperam quando pensam em cordelistas. Mas, ao mesmo tempo, tenho recebido um retorno lindo de outras cordelistas, são mulheres que levam meus cordéis para eventos onde vão declamar, gente que me indica. Essa troca é muito gostosa. Acho que sou muito sortuda, muito realizada com meus cordéis.

A personagem Dandara do livro As Lendas de Dandara é inspirada em uma figura histórica que muitos dizem sequer ter existido e em um determinado momento histórico que pessoas negras viviam no Brasil. Como foi o processo de criar uma personagem com base em uma mulher real em um mundo com muitos aspectos fantásticos?

Jarid: Foi muito louco, porque eu nunca tinha me deparado com os debates sobre a real existência dela, hahaha. De repente vi pesquisadores negros falando sobre essa teoria de que ela é mais um símbolo, uma junção de outras como Tereza de Benguela e Luiza Mahin. Mas isso foi incrível, porque eu me abri para pesquisar mais a fundo e também para criar sem preocupação. Foi importante porque eu entendi que poderia fazer de Dandara um símbolo gigante, poético, filha de Iansã, que se relacionava com um Zumbi sensível, feminista, essas coisas todas. A literatura pode ser o mundo que a gente quer, né? Eu queria que Dandara fosse a Dandara que eu criei, porque é assim que a sinto. Quando penso nela, é esse sentimento que eu tenho. Se eu não puder colocar Dandara para se desmanchar em magia de cor rosada na literatura, onde poderei?

As Lendas de Dandara é uma coisa muito gostosa, sabe? Minha escrita mudou muito de lá pra cá, mas da última vez que reli eu fiquei satisfeita em perceber que consegui transmitir a aura de lenda. Não tinha como ser contado de outra forma. A intenção de dar visibilidade ao seu nome e a luta contra a escravidão foi a raiz de tudo, e até hoje cumpre esse propósito, então foi lucro por todos os lados.

O livro As Lendas de Dandara foi inicialmente lançado de forma independente e sem editora. Quais foram as dificuldades que você encontrou como escritora independente?

Jarid: A principal dificuldade foi a grana, até hoje eu estou devendo o empréstimo que fiz. Piorou porque eu não tinha contatos de gráficas, hoje eu tenho. Então eu fiz tudo muito dentro do mínimo que eu poderia pagar. Não foi o melhor papel, a capa não tinha orelha, a colagem dos livros ficou ruim e algumas pessoas me escreveram lamentando que páginas soltaram… foi o que deu naquele momento e dentro da minha realidade. Agora com editora as dificuldades são outras: eu estou bem menos envolvida em todo processo, não tenho todo o controle sobre a coisa toda e isso é muito difícil pra mim, porque eu era daquelas que fazia o trabalho da escola sozinha, mesmo tendo um grupo de 8 pessoas, só pra garantir que tudo estaria certo e bem feito hahaha. Mas já não terei a dificuldade da distribuição, vou realizar o sonho de estar em livrarias e muitos sites de vendas de livros. Isso é muito mágico. Então todos os lados tem seus prós e contras. Consigo lembrar do perrengue para divulgar sem ter como pagar anúncios, mas ao mesmo tempo lembro de como tantas mulheres abriram espaço em blogs, colunas, sites, e me ajudaram a divulgar. Lembro de como vendi devagar, tipo 2 ou 3 livros por semana, e no mês seguinte vendia 50 livros, e isso me deixava totalmente instável de grana e de sentimentos, mas no fim das contas o que mais lembro é que esgotou tudo. Sabe? Acho que dá pra entender como é especial.

Quais são seus projetos literários atuais e futuros?

Jarid: Estou trabalhando no lançamento da Revoada Editora, junto com a Vanessa Rodrigues; a Revoada vai publicar apenas mulheres e inicialmente com uma proposta de ebooks para ser mais acessível financeiramente. Estou escrevendo um livro de poesias e contos eróticos e também estou já nas etapas mais deliciosas do meu livro com 15 cordéis das heroínas negras brasileiras, que sairá pela editora Pólen no início de 2017 – nesse livro estamos trabalhando com a Gabriela Pires, uma ilustradora e designer maravilhosa, e o livro vai ficar lindo demais. Até o fim desse ano, espero que ainda em novembro, As Lendas de Dandara será relançado. E, fora isso, estou em fase de pesquisa e ajuntamento de referências para um romance de fantasia que se passa novamente no período da escravidão no Brasil. Ufa, né? E tem o Clube da Escrita Para Mulheres, que agora é semanal, e é a parte mais incrível das minhas semanas. Mulheres de São Paulo que queiram participar, basta procurar o grupo no facebook e solicitar a entrada que eu aprovo. É gratuito e muito amor!


Thaís Campolina

Sobre Thaís Campolina

Tenho 26 anos, um diploma e muitas dúvidas. Como boa mineira, sou contadora de causos e muitos envolvem erros com corretor de celular. Gosto de joguinhos fofos, de itens de papelaria, de dormir, ler e rabiscar.