Entrevista: Aline Valek


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Foto: Leon Rodrigues

Se você gosta de ler e busca sempre conhecer novos escritores e faz isso principalmente através da internet, é bem possível que nessa jornada você tenha esbarrado em algum trabalho da Aline Valek. Caso ainda não, talvez seja a hora de conhecê-la. Além dos livros Hipersonia Crônica, Pequenas Tiranias e As Águas-Vivas não Sabem de Si, ela escreve a newsletter quinzenal Bobagens Imperdíveis, é colunista da Carta Capital, é co-criadora e editora de um selo independente de ficção científica, ilustra e já teve um blogue sobre comida e o podcast We Can Cast It. Nessa entrevista, Aline diz que pra ela o que importa mesmo é colocar verdade em tudo o que faz, para que assim consiga tocar a verdade que há dentro de outra pessoa. Essa busca por uma escrita que toque, conecte, se mostra até em como ela se comunica com o público: ela tem uma conta no Twitter em que faz postagens frequentes e uma newsletter, o que possibilita que os leitores dialoguem com ela.

Sendo você, leitor, um fã do trabalho da autora ou uma pessoa que nunca leu um tweetzinho sequer da conta dela, sugiro conhecer um pouco do que ela fala sobre ser escritora e contar histórias nessa entrevista:

O que te fez querer ser escritora? Como foi seu processo até passar a se definir assim? Muita gente tem dificuldade de assumir como escritor, você passou por isso?

A verdade é que eu não “quis” ser escritora. O que eu queria mesmo era ser desenhista da Marvel. Olha a ambição da garota. Escritora eu me tornei quase que por acaso, por um processo de anos trabalhando com escrita, primeiro como redatora, depois com o blog, quando eu vi estava escrevendo ficção. Não foi algo planejado. Olhei para o lápis na minha mão e de repente percebi que eu não o estava usando para desenhar, e sim para escrever. Fiz aquela cara de “como é que esse lápis veio parar na minha mão em primeiro lugar”, mas simplesmente aceitei e continuei a escrever. Talvez porque o que eu queria, desde quando eu achava que seria ilustradora, era contar histórias. Então não foi exatamente eu que me defini escritora; o meu trabalho que definiu, com o tempo.

“O que importa realmente pra mim é colocar verdade em tudo o que eu faço, para que consiga tocar a verdade que há dentro de outra pessoa. Escrevo para conseguir essa conexão, nem que seja com uma única pessoa.”

Como é o seu processo criativo? As águas-vivas não sabem de si foi seu primeiro romance publicado, como você lidou com esse formato “novo”? Como foi se adaptar ao processo de escrever um livro mais longo que trabalha os personagens mais profundamente?

Histórias são sempre histórias. É sempre preciso se adaptar a cada uma delas, ao universo delas, a linguagem que cada uma pede, aos personagens contidos nelas. Essa “adaptação” é constante, faz parte do trabalho, não importa se escrevendo um conto ou um romance. As águas-vivas não sabem de si foi uma história que exigiu que eu passasse mais tempo nela, assim como a pesquisa do doutor Martin exigia que ele passasse mais tempo nas profundezas do oceano. E por se tratar de uma história que exigiu ser mais longa, o processo também foi mais longo, assim como o tempo que tive para conhecer os personagens. No mais, não é muito diferente dos processos de escrita a que estou acostumada; envolveu muita pesquisa e muitos e muitos dias de escrita, com aquela deliciosa sensação de “ai meu deus eu não faço ideia de onde isso vai parar”.

Tem uma publicação no seu site que é o meu xodó, que é a Rádio Imaginária com a baleia. Agora conheci “As águas-vivas não sabem de si” e ambos tem personagens marinhos. Como é a sua relação com o mar? E com a água em si? Tem alguma história que você viveu que influenciou nesse seu interesse?

Por ter crescido em Brasília, o mar sempre foi algo distante, um outro mundo, um planeta longínquo. Só conheci o mar depois de adulta. Mas essa distância criou em mim uma enorme fascinação. Assistia vídeos do Jacques Cousteau e achava o máximo. Achava que um dia seria bióloga marinha. Não deu, mas o interesse permaneceu. Talvez porque a minha relação com o mar e com a água seja tão profundo quanto o de qualquer ser humano. É algo muito primordial, porque a vida surgiu dali. Mas não é algo que faz parte apenas de um passado remoto, é algo fundamental hoje, agora: o oceano sustenta a vida no planeta. No litoral ou no planalto central, dependemos dele, e isso faz com que a história de cada um de nós esteja profundamente ligada ao oceano. Além do mais, somos todos feitos de água, né?

Mostrar um texto para alguém “de fora” pela 1ª vez é sempre muito difícil, como você lida com isso? Você sente insegurança ou o que muitos chamam de “síndrome do impostor” na hora de mostrar seu trabalho?

A prática de publicar na internet há muitos anos cura qualquer vergonhazinha. E quando se está comprometido com a ficção, com o trabalho de escrever e contar histórias, essa parece ser uma questão tão minúscula, tão irrelevante. O que importa realmente pra mim é colocar verdade em tudo o que eu faço, para que consiga tocar a verdade que há dentro de outra pessoa. Escrevo para conseguir essa conexão, nem que seja com uma única pessoa. Críticas vão existir sempre. Mas se eu tiver medo delas, se eu não colocar a cara no sol e mostrar o que escrevi, como vou conseguir essa conexão que busco?

Quais são as suas principais dicas para quem quer ser escritora?

Considero que existam três dicas para escritores iniciantes que sejam válidas e não mera cagação de regra, porque processo criativo e trajetória de carreira cada um tem que buscar a sua. Então as dicas são: Escreva. Escreva mais. E se puder não escrever, não escreva. As duas primeiras resolvem boa parte dos problemas para quem está começando. Quem quer escrever não vai ficar buscando dicas, vai sentar a bunda na cadeira e escrever. E, quando perceber que não é o suficiente, vai escrever ainda mais. A terceira resolve os problemas que as duas primeiras não conseguirem. Se você pode fazer qualquer outra coisa, ser escritora pra quê? Mas se não tiver jeito, se você teima em seguir essa profissão, aí volte para a dica 1. Porque a diferença entre quem escreve casualmente e quem escreve como ofício é só a teimosia. Se você for teimosa o suficiente para continuar escrevendo enquanto você pode simplesmente não escrever, então você já terá feito o mais difícil.

Você escreve sobre literatura num todo, ficção científica, feminismo, cotidiano, teve um blog que falava sobre comida, um podcast sobre cultura pop e feminismo… Quais são as suas temáticas preferidas e qual o seu formato preferido para abordá-las?

Não tenho exatamente temáticas preferidas. Escrevo sobre o que me inspira e sobre o que me incomoda. Às vezes isso será um texto sobre timidez, fanzines ou astronomia, um conto sobre sonhos, alienígenas ou dinossauros, ou um romance sobre o fundo do mar. A própria literatura é uma ferramenta para explorar esses temas, e ela é grande o suficiente para caber o universo. Não gosto da ideia de me limitar a um só tema, acho chato escrever sobre uma coisa só. Acho entediante escrever sobre o que esperam que eu escreva. Acho limitante ter que escrever de um jeito só, em um só formato. Qualquer formato que servir para eu contar aquela história será meu formato favorito para aquela ocasião – e cada momento, cada história, vai ter um formato mais adequado.

Falando em formatos, vejo que você inova muito em como transmitir suas ideias e textos, já teve podcasts, blogs e atualmente tem usado bastante a ferramente da newsletter. Como é a sua relação com a tecnologia nessas horas? Você usa algum aplicativo ou site para auxiliar na escrita ou prefere usar mais na hora de divulgar o seu trabalho?

Trabalhar sozinha como autora independente significou eu ter que aprender a me virar do jeito que dá com o que tenho à disposição. Então tento usar todas essas ferramentas a meu favor, seja aprendendo a editar podcast, vídeos, ilustrar meus próprios textos, usar as redes sociais, pensar em novas formas de fazer aquele conteúdo chegar às pessoas. E nisso a tecnologia acaba estando presente em todas as etapas do processo, desde o planejamento e organização, até a escrita de fato, e depois a divulgação. Não costumo usar apenas um aplicativo, às vezes num mesmo projeto vou do lápis e papel (uma das tecnologias mais versáteis e acessíveis que temos à mão) para o Evernote, do Evernote para o Scrivener, dali para o Libre Office, e para o papel de novo, etc. Mas não acho que aplicativos sejam tão determinantes. Ferramentas são isso: ferramentas. Aprendi que elas são meios de chegarmos ao que queremos fazer, mas que mais importante que dominá-las é desenvolver a gelatina gosmenta de neurônios que temos dentro da cabeça. No final das contas, a gente já tem dentro de nós tudo o que é preciso para criar.

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Thaís Campolina

Sobre Thaís Campolina

Tenho 26 anos, um diploma e muitas dúvidas. Como boa mineira, sou contadora de causos e muitos envolvem erros com corretor de celular. Gosto de joguinhos fofos, de itens de papelaria, de dormir, ler e rabiscar.