Cinema: A Atração, de Agnieszka Smoczynska


Indo nessa onda de musicais (vulgo La La Land) estourando esse ano, o primeiro filme da diretora polonesa Agnieszka Smoczynska “A Atração” foi uma das melhores surpresas desse janeiro meio tedioso de 2017.

O filme diz sobre várias coisas. Uma delas é a história de duas irmãs, Golden e Silver, que começam a trabalhar em uma boate fazendo performances. Sob outra perspectiva podemos dizer que o filme é um musical sobre sereias carnívoras filmado numa vibe meio anos oitenta, cheio de tons esverdeados e imagens borradas. Mas esses dois universos coexistem de uma forma totalmente agradável. A boate em especial propicia uma atmosfera exótica que serve de recurso narrativo para a normalização da existência de sereias cantoras. Lá há contorcionistas, dançarinas burlescas e shows musicais. Não vou mentir que talvez o meio do filme seja um pouco confuso, alguns personagens muito interessantes acabam meio perdidos durante a trama. Mas o fato é: isso não diminui o mérito de Agnieszka em fazer uma metáfora sensível sobre o que é se tornar mulher.

Golden e Silver representam as duas faces que rodeiam os mitos sobre sereias: metade mulher, metade animal. Silver é como a pequena sereia, apaixonando-se e correndo o risco de perder o dom de cantar em prol de seu amado. Enquanto Golden estaria mais perto das representações antigas de Homer na Odisseia, na qual as sereias eram criaturas obscuras e animalescas. As duas irmãs acabam dissolvendo-se em um único propósito: nos fazer meditar sobre o amadurecimento e a busca da própria identidade, em especial, uma identidade feminina que muitas vezes esbarra em caminhos torpes e dolorosos. Numa cena muito significativa, Silver conversa com Mietek, um músico por quem a garota está apaixonada, e ele diz “Sem ofensa, mas para mim você sempre será um peixe, um animal”. Anteriormente vemos Silver como humana, duas pernas e completamente pelada. Enquanto conversa com Mietek ela entra na banheira e uma gigantesca cauda de enguia engole metade de seu corpo, transformando-a. Esse desajuste faz com que as irmãs não pertençam ao mundo terrestre e acabem não pertencendo a si mesmas. Silver tenta de todas as formas sentir confortável, passando a fumar mesmo depois do aviso de uma senhora que trabalhava na boate: “O cigarro vai fazer você perder sua voz dia”. Ela quer fazer passeios, comprar roupas, criar vínculos. Silver é quase como uma menininha, ingênua e doce. Golden, no entanto, já sabe que as duas estão ali apenas de passagem. Ela não encontra o menor problema em assassinar habitantes locais para saciar seu desejo por carne, fato que a envolve numa atmosfera mais madura, mais dona de seus desejos e consciente de seus impulsos. Na música final do filme ela canta para a irmã “You can always choose to walk out” numa tentativa de fazê-la entender sobre os perigos de ser levada por fantasias e abandonar sua verdadeira natureza.

Livremente baseado nas experiências de adolescente da diretora, Agnieszka diz que a ideia do filme nasceu, em parte, pelo fato de sua mãe ser dona de uma boate. O conceito das sereias carnívoras e do filme tornar-se um musical foi sendo desenvolvido depois, como uma metáfora para esses anos anteriores. Todo o design de erotismo e tristeza envolto nessa atmosfera sombria e ao mesmo tempo vibrante foi influenciado esteticamente pelo trabalho da polonesa Aleksandra Waliszewska. Muitas de suas ilustrações possuem a temática de mulheres, sejam elas humanas ou como criaturas místicas e animais de fábulas. Através de figuras intensamente imaginativas e com uma estética gótica, Aleksandra retrata um imaginário de repressão das mulheres em algumas das obras que serviram de base para o filme.

Nesse sentido, uma série de acontecimentos vão permeando um caminho melancólico para Silver e Golden. Se anteriormente existia uma decadência instaurada de forma sutil, isso muda completamente da metade do filme para o final. Por motivos de spoiler eu não vou detalhar as circunstâncias envolvidas. Mas, o que eu posso dizer é que desde o início a exploração das duas é perceptível. Em uma sequência muito desconfortável, a ausência de órgãos genitais na forma humana das irmãs desperta a curiosidade do dono da boate que diz “Lisas como Barbies”. Porém, as duas possuem um rasgo no rabo que seria como a genitália das sereias. O velho enfia o dedo no buraco da cauda de Silver sem a menor cerimônia. A naturalização de um comportamento abusivo e descomprometido persegue as personagens até o final, acabando por selar o destino das duas de uma forma irreversível. É definitivamente um filme que consegue segurar o encantamento da sua proposta.

 As ilustrações lindas no começo do filme e nessa resenha são da Aleksandra Waliszewska, você pode conferir o trabalho dela aqui e aqui.

E a trilha sonora original é da banda Ballady i Romanse com o álbum Corki Dancingu, também disponível no Spotify.


Manoela Morgado

Sobre Manoela Morgado

Manoela Morgado, 20 anos, brasiliense. Autora do livro de poesias Grandes Chances de Morrer Lentamente e do blog todoversoblog (todoversoblog.wordpress.com). Sente-se desconfortável escrevendo biografias sobre ela mesma, mas escrever na terceira pessoa é muito chique.